segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Vestida de preto. Preto luto.

 Meu dia estava tão bom, tão maravilhoso, até eu receber a notícia de que você não estava mais entre nós. Tanta coisa passou pela minha cabeça, naquele momento. Tantas lágrimas rolaram pelo meu rosto, aquele que, um dia, você acariciou.. Por tantas vezes. Saudade é o mau do século, considero eu. E eu conseguia segurar. Eu era boa nisso. Desde a primeira vez que nos vimos e eu pude sentir sua pele na minha, e depois você foi... como um bilhete que cai das mãos e o vento vai levando. A princípio tentei segurá-la, trazê-la de volta.... Depois, desisti. E continuei minha vida. Medíocre, sim. Mas pouco importa. Tanta coisa me lembra você, tanta coisa. Algumas músicas me trazem de volta o seu sorriso e o seu toque, é como se eles estivessem aqui, bem presentes em mim. Sabe uma coisa que não sai da minha mente agora? A sua imagem. Passa uma cena muito infeliz na minha cabeça. É você caindo. Um tombo que te levou daqui pra sempre.
       Bastava que você me pedisse pra ir te encontrar com aquele vestido, e lá ia eu, com o vestido mais rosa e mais mulher que eu tinha... Só pra te ver sorrir, só pra sentir o seu mais apertado abraço. Eu não sei por qual motivo você foi embora. Sei que há um, que não é de meu conhecimento. Mas você soube aproveitar a vida que tinha e agora ela não a pertence mais. Eu sentirei saudades, meu amor. Meu peito sangra. E continuará sangrando por algum tempo. Ainda levará um tempo até que eu entenda o porque de o destino ser tão cruel, às vezes. Porque você não volta? Eu fujo com você. A manhã naquele hospital foi dura e dolorosa. Eu te imaginava deitada naquela maca, fria e sublime... Mas eu não me importei. Só queria te ver descendo aquelas escadas e sorrindo. Eu tinha planos de cuidar de você. Eu tinha... Já que você foi, quero que leve contigo um pedacinho do meu peito. E do meu amor. E aproveite o tempo que tem. Logo te encontrarei.

Bela Carolina

         Engraçado como agora escuto uma bela melodia (não uma apenas) falando de amor, enfim, e me recordo certamente de você. Cada nota tocada e meu pensamento voa..... entra pelas janelas de seu quarto, e deita ao seu lado, em sua cama. Acaricia-lhe o rosto, tira sua blusa e enfim, sua roupa toda. A toma nos braços e a ama durante toda a noite. Mas, a partir deste momento, não é apenas meu pensamento, sou eu, nua. Nua em pensamento, nua verdadeiramente. E verde. Verde como uma fruta que ainda precisa madurar. Verde como alguém ou algo que permanece in natura. Verde como uma imensidão. Imensidão esta que só deseja você, bela Carolina. Whisky, ou apenas uma vodca barata. Por que não? Dois maços de cigarro, um pouco de música, chuva, lá fora.. Duas moças, uma frente à outra. Com os dedos entrelaçados, com os olhares entrelaçados, não haveria de ser diferente. Poderia ser em Paris, poderiam estar ouvindo um Jazz, poderiam ser duas ladies, poderiam conversar sobre música, filme, dança, arte, em sua essência. Mas paremos de cult bacanisse. Na verdade as duas estão se amando, bebendo uma cerveja barata e fumando qualquer cigarro, ouvindo qualquer rock por aí.. Conversando sobre cotidiano. De repente se cansam e resolvem ir ao cinema, ver um filme banal, beijar no escuro, onde ninguém pode ver, onde ninguém pode julgar. Onde elas podem ser elas. Onde elas podem se amar livremente e esquecer do mundo. Na saída do cinema, compram um belo chocolate quente, e no caminho de volta pra casa, riem feito crianças, sem preocupações. No elevador, se acariciam, se tocam, se olham, e até que, na saída, um beijo silencioso toma conta de tudo e elas mal podem se controlar. Dá tempo, felizmente, de pegarem a chave do apartamento e adentrarem o mundo delas. Nesse momento, então, não é mais necessário controle. As respirações ofegantes, os gemidos e olhares sacanas, ao mesmo tempo apaixonados, tomam o lugar dos risos. E os dois corpos puros e nus, das duas moças, se tocam descontroladamente. O sabor delas se misturam. O mundo ao redor se mistura. Só elas e nada mais. Nada além de duas mulheres, entregando-se uma à outra. Observo isso de fora. Querendo que uma delas seja eu. A outra, naturalmente, seja você. E continuo a observar. Sem cigarro, sem cerveja, muito menos vodca ou whisky. Sem cinema, chocolate, sem teu gosto. Sem tuas entranhas frente à minha boca. Muito menos as minhas frentes à sua. O que seria o início de uma nova era. Daí já consigo nos imaginar numa praia. Eu de vestido e você de camisa, dizendo sim. Porém, antes, imagino você, bela Carolina, participando das minhas conquistas, das minhas derrotas, da minha vida. E eu, consequentemente, da sua. Seria pedir demais?? Mas pra começar, eu só desejo você aqui agora, tomando nas mãos a única coisa que considero minha. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor e ode

          Três coisas eu guardo de você: o ingresso de cinema da primeira vez que saímos juntos, a lembrança de um aborto quase mal sucedido e cicatrizes. Duas, pra ser exata: uma da facada que me dera na perna e outra de um arranhão profundo que me dera na nuca enquanto você habitava minha boca. Isso porque os anos se passaram e regeneraram minha pele que há pouco menos de um ano era cheia de hematomas. Finalmente consegui esquecer -é claro que não completamente- o que eu sentia quando me deitava em sua cama e era invadida por você. Engoli todo o amor e paixão que eu sentia, já que eles me faziam ignorar toda a dor da sua mão grande, bruta e pesada, que cobria meu rosto com toda a sua força. Eu preferia quando você usava sua força pra controlar meu ciúme, me colocar contra a parede, me beijar a boca, a nuca, o sexo, e me jogar na cama. Mas isso, Basílio, você nunca entendeu. Você nunca entendeu que, na verdade, eu ardia de paixão por você. Você nunca entendeu que eu jamais seria capaz de ser de outro homem, que não você. Você nunca entendeu que o que eu queria era invadir sua casa e ser sua mulher, sua dama, sua moça, sua puta ou o que mais você quisesse que eu fosse. Era visível, mas você não percebia. Você não foi capaz de perceber que naquela noite em que eu te esperava com uma garrafa de vinho, semi-nua, ouvindo blues, eu não queria compensar nenhuma traição. O que eu queria, Basílio, naquela noite, era acordar toda a vizinhança com meus gemidos. Era gritar pra todo mundo que eu te amava e que você me deixava louca com apenas um toque. O que eu queria era te receber de pernas abertas. O que eu não queria era que você tivesse chegado embriagado  segurando um revólver alheio apontado pra minha cabeça, e me enforcando com apenas uma mão. O que eu não queria era ter tido força pra reverter a situação. O que eu não queria era ter disparado um tiro contra seu peito. Por tanto tempo chorei sua morte como viúva, e a sorri como assassina. Demorei a entender que você foi meu herói e meu carrasco, mas me recuso a assimilar que isso seja verdade. Eu gostaria de ter libertado sua mente doente, e ter passado o resto da vida com você, criando o filho que você me obrigou a matar. Você não enxergava um palmo à sua frente. Me despeço, hoje, de vez, do vilão da minha história e de todo o prazer e amor que senti com você. Ainda vai demorar até que eu consiga me despedir de toda a mágoa que habita meu peito. Quando eu conseguir, porém, me despedirei de você, finalmente. Vejo que nossa história é cheia de antíteses. Cheia de amores e ódios, choros e risos, agressões e carinhos. O que jamais poderá ser contestado é o seu vilanismo. Posso não ser a mocinha, talvez nem haja uma. Mas você, com certeza, foi o principal antagonista dessa historinha medíocre criada pela sua mente podre. Historinha esta que eu não pensaria duas vezes se me perguntassem se eu gostaria de viver de novo. Eu com certeza diria "sim". 

À mim mesma, no passado

Quisera eu poder me libertar de todo o mal que me assola. Quisera eu poder me jogar embaixo de um trem sem me preocupar com quem continuaria aqui, chorando minha ausência. Quisera eu poder assinar minha "carta de alforria", calçar uns tênis, comprar uma passagem de ônibus "pra" terra de ninguém, e finalmente ser feliz. Quisera eu ter a cara lavada de gritar pra mulher que eu amo que eu a amo. Minha consciência sempre me diz: "É, Ana, quem dera a vida fosse tão simples quanto você deseja..." Fatalmente eu não teria uma ruga sequer no rosto. Somente marcas de expressão, que por sua vez seriam sorrisos. Tenho 32 anos, muitas contas "pra" pagar, pouco dinheiro no bolso, que gasto com cigarro e cerveja e a lembrança da minha juventude. Não que eu seja velha, mas ah os meus 20 anos... Me lembro bem de quando eu pensava que a vida era fumar maconha, encher a cara no bar do português e foder com todas as menininhas que me dessem mole. Lembro bem de quando eu pensava que aos 30 eu teria uma mulher, um guri, e que meus pais finalmente voltariam a olhar nos olhos a filha lésbica que eles têm. Eu realmente pensava que a essa altura eu teria um carro na garagem, mulher, filhos e um cachorro chamado Aristóteles. Aqui estou eu acabando com o terceiro maço do dia, passando os canais da TV como se houvesse algo relevante nela e escrevendo desabafos na agenda telefônica como se não houvesse nada mais interessante "pra" fazer com essas mãos. Olho para o relógio como se eu tivesse marcado um encontro com alguém. Embora eu ache que realmente tenho um encontro marcado com alguém. Com a minha eterna sensação de inexistência.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O crime de Cecília Cruchel

         Desde que entramos em crise, Beatrice e eu entramos naquela de "realizar fantasias sexuais". Depois de transarmos com trajes e cenário dos anos 20, que é uma fantasia que tenho desde que me entendo por mulher, era a minha vez de agradá-la. Minha namorada sempre quis transar em lugar público, que era algo que, particularmente, não me agradava. No fim eu ignorei todas as minhas vontades por saber que nada é mais excitante que excitar a mulher da minha vida. Certa tarde de uma quinta feira, pedi à Beatrice que fosse comigo até a biblioteca que fica próxima à nossa faculdade e, tentando encontrar "O crime do Padre Amaro" (obrigada, Padre, por ter me proporcionado o melhor orgasmo da minha vida), a agarrei pelas coxas e a levei pro corredor mais vazio que pude encontrar. Ao olhar aqueles seios não pude, mesmo se eu quisesse, controlar minhas forças e a joguei contra uma estante, derrubando alguns dos livros. Mais que depressa levei minhas duas mãos para dentro de sua blusa e enquanto agarrava com sede seus seios, beijava, com mais sede ainda, aqueles lábios grossos e feridos. Fui interrompida, infelizmente, pelos passos da bibliotecária e fiquei só a olhá-la, apoiada com uma das mãos na estante.Assim que notamos que estávamos "sozinhas" novamente, Beatrice me olhou e mordeu seu lábio inferior, me tomando em seus braços e tomando também o controle da situação. Me beijava intensa e profundamente os lábios, partindo para minha orelha e pescoço onde, ao que parecia, marcava a minha pele com aquelas sucções. Eu já podia sentir que meu corpo implorava por sua boca e eu estava verdadeiramente úmida, como já era de se esperar. Beatrice desceu a mão e desabotoou meu short, o desceu até que ela pudesse me manusear livremente, e então começou a realizar movimentos desordenados em meu clitóris. O que eu pude fazer foi fechar os olhos. Ela pôs uma das orelhas frente à minha boca e, quando eu não sugava seu lóbulo, gemia bem baixinho, enquanto ela penetrava dois de seus dedos em mim. Já que pelo médio movimento da biblioteca, eu não poderia sentir nada além de seus dedos dentro de mim, eu me permitia me lembrar da última vez que transamos. Eu me lembrava da última vez que pude sentir o gosto de Beatrice. Não fazia muito tempo, fato, mas eu tinha saudade. Se dependesse de mim eu a tomaria o sexo com a boca ali mesmo, na biblioteca, na frente de todos. Essa era a minha maior vontade: fazer Beatrice me sentir dentro dela, naquele momento. Meus pensamentos foram interrompidos com a maravilhosa sensação que aquela mulher, a minha mulher, me proporcionava. Ela me manuseava a todo instante e eu, já com as pernas estremecidas, cravei minhas unhas em suas costas e gemi, definitivamente, alto. Eu havia chegado ao ponto mais alto que uma mulher deseja chegar. Olhei nos olhos de Beatrice e sorri, sentindo os últimos instantes daquele orgasmo. A beijei com uma ternura que mal cabia dentro de mim, passando a mão por sua cintura e fiquei assim por longos minutos. A essa altura a última coisa da qual me lembrava era do Padre Amaro. Este eu deixei na biblioteca. Peguei minha bolsa, minha mulher, minha satisfação e fui comprar um bom vinho. Em casa eu realizaria aquele meu desejo.

A última e a primeira


       

         Mal podia caminhar. Chegou em casa só Deus sabe como, jogou tudo que tinha na bolsa no chão, pegou a chave e um lenço, chutou tudo que havia espalhado para dentro de sua sala e se jogou na cama. Todo o uísque que tinha bebido agora estava no chão, junto com sua auto-estima e sua vontade de viver. Muita coisa passava pela sua cabeça agora: “Eu disse a mim mesma: nunca mais chorarei por mulher alguma nessa e em nenhuma outra vida.” “Eu só preciso de mim. E de mais ninguém. Posso ser feliz assim.” “Catarina, Catarina, Catarina. Por quê?” Tirou toda a roupa e enxergou, com aqueles mesmos olhos marejados, que aquela mulher à sua frente, no espelho, não deveria desperdiçar uma lágrima sequer. Mais que depressa se levantou em direção ao banheiro. Ligou o chuveiro e, enquanto deixava a água esquentar, olhou mais uma vez seu reflexo. Tocou seus seios com uma das mãos e sentiu sua pele arrepiar. Com a outra mão tocou mais abaixo, e ficou assim, por alguns instantes, sentindo latejar aquilo que segurava. No entanto, ignorou o desejo de satisfazer a si mesma e entrou debaixo d’água, sentindo todo o seu corpo molhar. A água levava parte da tristeza que sentia. Saiu do banheiro enrolada em uma toalha, que deixava suas pernas amostras, serviu-se de uísque novamente, ainda que seu fígado e cabeça doessem, acendeu um cigarro, ligou a vitrola, que tocava um disco de Gal Costa. Abriu o armário e deparou-se com uma infinidade de roupas. Vestiu-se com um espartilho e calcinha pretos e assim ficou por muitos minutos, cantando Chico Buarque que, de fato, ficava muito melhor na voz de Gal que na sua. Pegou umas velhas fotografias e queimou todas que tinham Catarina. “Não quero nenhum resquício dessa mulher na minha vida”, pensou. Levantou-se do chão e sentou-se na penteadeira, pintando os olhos de preto e a boca de vermelho sangue. Espalhou um pouco de ruge pelas maçãs do rosto e vestiu o primeiro vestido decotado que viu. Preto, como não podia deixar de ser. Penteou, muito mal, os cabelos, pegou sua bolsa mais que depressa e saiu pela porta, deixando a vitrola ligada, o cigarro inacabado, o armário aberto e o chão sujo de uísque e bile. Limparia depois, quando tirasse da face tudo o que lhe assolava. Saiu pela porta. Hoje eu não preciso de mais ninguém. No entanto, voltou, lá pelas 3 da manhã, com uma mulher, cujo nome era algo que terminava com Lia, não sabia o nome completo. Nem teve tempo de perguntar. Lia deitou-se em seu sofá, beijou-a por longos instantes, apoiou suas pernas em seus ombros, e gemeu o resto da noite, deixando suas costas em carne viva. Foi-se embora e ela ainda lembrava daquela mulher que tinha feito com que acabasse toda a sua alegria.