quinta-feira, 22 de novembro de 2012

À mim mesma, no passado

Quisera eu poder me libertar de todo o mal que me assola. Quisera eu poder me jogar embaixo de um trem sem me preocupar com quem continuaria aqui, chorando minha ausência. Quisera eu poder assinar minha "carta de alforria", calçar uns tênis, comprar uma passagem de ônibus "pra" terra de ninguém, e finalmente ser feliz. Quisera eu ter a cara lavada de gritar pra mulher que eu amo que eu a amo. Minha consciência sempre me diz: "É, Ana, quem dera a vida fosse tão simples quanto você deseja..." Fatalmente eu não teria uma ruga sequer no rosto. Somente marcas de expressão, que por sua vez seriam sorrisos. Tenho 32 anos, muitas contas "pra" pagar, pouco dinheiro no bolso, que gasto com cigarro e cerveja e a lembrança da minha juventude. Não que eu seja velha, mas ah os meus 20 anos... Me lembro bem de quando eu pensava que a vida era fumar maconha, encher a cara no bar do português e foder com todas as menininhas que me dessem mole. Lembro bem de quando eu pensava que aos 30 eu teria uma mulher, um guri, e que meus pais finalmente voltariam a olhar nos olhos a filha lésbica que eles têm. Eu realmente pensava que a essa altura eu teria um carro na garagem, mulher, filhos e um cachorro chamado Aristóteles. Aqui estou eu acabando com o terceiro maço do dia, passando os canais da TV como se houvesse algo relevante nela e escrevendo desabafos na agenda telefônica como se não houvesse nada mais interessante "pra" fazer com essas mãos. Olho para o relógio como se eu tivesse marcado um encontro com alguém. Embora eu ache que realmente tenho um encontro marcado com alguém. Com a minha eterna sensação de inexistência.

4 comentários:

  1. Eu meio que me identifiquei, mas é pelo medo de ficar assim daqui a alguns anos.
    Cê manda bem, moça.

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  2. Se não vai ficar assim, né, pfvr. Só fica assim quem n se permite. Logo posto mais um. E, obrigada.

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  3. Me vi muito nesse texto. Hm. Será que estamos perdidas, Gica?

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    1. Jamé, Mi. Nós já temos o amor das nossas vidas... Só falta nossos pais nos aceitarem, o cachorro e os filhos HAHA

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