Mal podia caminhar. Chegou em casa só
Deus sabe como, jogou tudo que tinha na bolsa no chão, pegou a chave e um
lenço, chutou tudo que havia espalhado para dentro de sua sala e se jogou na
cama. Todo o uísque que tinha bebido agora estava no chão, junto com sua
auto-estima e sua vontade de viver. Muita coisa passava pela sua cabeça agora:
“Eu disse a mim mesma: nunca mais chorarei por mulher alguma nessa e em nenhuma
outra vida.” “Eu só preciso de mim. E de mais ninguém. Posso ser feliz assim.”
“Catarina, Catarina, Catarina. Por quê?” Tirou toda a roupa e enxergou, com
aqueles mesmos olhos marejados, que aquela mulher à sua frente, no espelho, não
deveria desperdiçar uma lágrima sequer. Mais que depressa se levantou em
direção ao banheiro. Ligou o chuveiro e, enquanto deixava a água esquentar,
olhou mais uma vez seu reflexo. Tocou seus seios com uma das mãos e sentiu sua
pele arrepiar. Com a outra mão tocou mais abaixo, e ficou assim, por alguns
instantes, sentindo latejar aquilo que segurava. No entanto, ignorou o desejo
de satisfazer a si mesma e entrou debaixo d’água, sentindo todo o seu corpo
molhar. A água levava parte da tristeza que sentia. Saiu do banheiro enrolada
em uma toalha, que deixava suas pernas amostras, serviu-se de uísque novamente,
ainda que seu fígado e cabeça doessem, acendeu um cigarro, ligou a vitrola, que
tocava um disco de Gal Costa. Abriu o armário e deparou-se com uma infinidade
de roupas. Vestiu-se com um espartilho e calcinha pretos e assim ficou por
muitos minutos, cantando Chico Buarque que, de fato, ficava muito melhor na voz
de Gal que na sua. Pegou umas velhas fotografias e queimou todas que tinham
Catarina. “Não quero nenhum resquício dessa mulher na minha vida”, pensou.
Levantou-se do chão e sentou-se na penteadeira, pintando os olhos de preto e a
boca de vermelho sangue. Espalhou um pouco de ruge pelas maçãs do rosto e
vestiu o primeiro vestido decotado que viu. Preto, como não podia deixar de
ser. Penteou, muito mal, os cabelos, pegou sua bolsa mais que depressa e saiu
pela porta, deixando a vitrola ligada, o cigarro inacabado, o armário aberto e
o chão sujo de uísque e bile. Limparia depois, quando tirasse da face tudo o
que lhe assolava. Saiu pela porta. Hoje eu não preciso de mais ninguém. No
entanto, voltou, lá pelas 3 da manhã, com uma mulher, cujo nome era algo que
terminava com Lia, não sabia o nome completo. Nem teve tempo de perguntar. Lia
deitou-se em seu sofá, beijou-a por longos instantes, apoiou suas pernas em
seus ombros, e gemeu o resto da noite, deixando suas costas em carne viva.
Foi-se embora e ela ainda lembrava daquela mulher que tinha feito com que
acabasse toda a sua alegria.

Bom início de atividades, menina.
ResponderExcluirGostei...
Cadê opção "curtir" aqui, mds? HAHAH Obrigada, Mari! Posto mais depois.
Excluirmuito bom seu texto... se for continuar assim, fico fã.
ResponderExcluirjá é um dos meus favoritos.
Obrigada, Tati. Bem, eu espero continuar assim.. É claro que sempre muda a inspiração, e um pouco o modo de escrever, mas espero atender às suas expectativas...
Excluir