quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor e ode

          Três coisas eu guardo de você: o ingresso de cinema da primeira vez que saímos juntos, a lembrança de um aborto quase mal sucedido e cicatrizes. Duas, pra ser exata: uma da facada que me dera na perna e outra de um arranhão profundo que me dera na nuca enquanto você habitava minha boca. Isso porque os anos se passaram e regeneraram minha pele que há pouco menos de um ano era cheia de hematomas. Finalmente consegui esquecer -é claro que não completamente- o que eu sentia quando me deitava em sua cama e era invadida por você. Engoli todo o amor e paixão que eu sentia, já que eles me faziam ignorar toda a dor da sua mão grande, bruta e pesada, que cobria meu rosto com toda a sua força. Eu preferia quando você usava sua força pra controlar meu ciúme, me colocar contra a parede, me beijar a boca, a nuca, o sexo, e me jogar na cama. Mas isso, Basílio, você nunca entendeu. Você nunca entendeu que, na verdade, eu ardia de paixão por você. Você nunca entendeu que eu jamais seria capaz de ser de outro homem, que não você. Você nunca entendeu que o que eu queria era invadir sua casa e ser sua mulher, sua dama, sua moça, sua puta ou o que mais você quisesse que eu fosse. Era visível, mas você não percebia. Você não foi capaz de perceber que naquela noite em que eu te esperava com uma garrafa de vinho, semi-nua, ouvindo blues, eu não queria compensar nenhuma traição. O que eu queria, Basílio, naquela noite, era acordar toda a vizinhança com meus gemidos. Era gritar pra todo mundo que eu te amava e que você me deixava louca com apenas um toque. O que eu queria era te receber de pernas abertas. O que eu não queria era que você tivesse chegado embriagado  segurando um revólver alheio apontado pra minha cabeça, e me enforcando com apenas uma mão. O que eu não queria era ter tido força pra reverter a situação. O que eu não queria era ter disparado um tiro contra seu peito. Por tanto tempo chorei sua morte como viúva, e a sorri como assassina. Demorei a entender que você foi meu herói e meu carrasco, mas me recuso a assimilar que isso seja verdade. Eu gostaria de ter libertado sua mente doente, e ter passado o resto da vida com você, criando o filho que você me obrigou a matar. Você não enxergava um palmo à sua frente. Me despeço, hoje, de vez, do vilão da minha história e de todo o prazer e amor que senti com você. Ainda vai demorar até que eu consiga me despedir de toda a mágoa que habita meu peito. Quando eu conseguir, porém, me despedirei de você, finalmente. Vejo que nossa história é cheia de antíteses. Cheia de amores e ódios, choros e risos, agressões e carinhos. O que jamais poderá ser contestado é o seu vilanismo. Posso não ser a mocinha, talvez nem haja uma. Mas você, com certeza, foi o principal antagonista dessa historinha medíocre criada pela sua mente podre. Historinha esta que eu não pensaria duas vezes se me perguntassem se eu gostaria de viver de novo. Eu com certeza diria "sim". 

3 comentários:

  1. Um tanto forte o texto, mas acho que gostei exatamente por isso.
    [ps.: viu?! Já mudou a temática do texto! Esse é totalmente diferente dos anteriores...]

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  2. Tão diferente. Adorei!
    (feministas jogariam pedras hahah)

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